Foto: Bruno Gabrieli
Com a crescente epidemia de obesidade, vira e mexe aparecem receitas milagrosas para a perda de peso. E nesse movimento surgem dietas das mais variadas. Entretanto, a maioria delas não tem nenhum embasamento científico.
Uma das novas ondas é banir do cardápio os alimentos que contêm glúten. É a dieta antiglúten. Nesse plano alimentar, estão proibidos cereais como a aveia, o centeio, o trigo e todos os seus derivados.
Para esclarecer a polêmica, convidamos o médico endocrinologista Marcello Delano Bronstein, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e um dos mais respeitados especialistas em obesidade do Brasil.
Confira agora a entrevista exclusiva:
Trigoésaúde: O que é glúten?
Marcello Bronstein: É uma proteína presente em alguns cereais, como o trigo, a aveia, o centeio e a cevada. O glúten colabora para o crescimento dos pães e está por trás da textura elástica das massas.
Trigoésaúde: E por que essa proteína passou a ser vista como a vilã da obesidade?
Marcello Bronstein: Tudo leva a crer que esse movimento tenha sido encabeçado por alguns radicais ou pela chamada "indústria da obesidade", que vira e mexe lança esse tipo de modismo. O que acontece é que muitas vezes as pessoas querem achar um único culpado para o ganho de peso, sendo que, na verdade, muitos fatores estão envolvidos, caso do sedentarismo e de distúrbios hormonais.
Trigoésaúde: Mas, afinal, existe alguma ligação entre essa substância e o ganho de peso?
Marcello Bronstein: Ao contrário do que se apregoa por aí, não existe elo entre o glúten e o ganho de peso. Há quem tente estabelecer um vínculo entre essa proteína e um desequilíbrio nos níveis de insulina, mas essa explicação não tem o menor fundamento científico.
Trigoésaúde: Então, não há nenhum mecanismo que relacione a exclusão dessa substância com o emagrecimento?
Marcello Bronstein: Não existem trabalhos que mostrem esse resultado. Obviamente, se deixarmos de comer quaisquer alimentos que contenham glúten haverá, por consequência, a redução calórica. Entretanto, vale frisar que esse tipo de restrição sem o menor equilíbrio pode provocar, no mínimo, deficiências nutricionais.
Trigoésaúde: Existem casos em que é preciso excluir o glúten da dieta?
Marcello Bronstein: A retirada só é recomendada para os portadores da doença celíaca. Eles têm uma espécie de alergia ao glúten, que provoca lesões no intestino. Estima-se que 1% da população seja afetada pelo problema.
Trigoésaúde: Quais são os sinais da doença celíaca?
Marcello Bronstein: Quando um portador da doença celíaca come algum alimento com o glúten, as vilosidades do intestino, que funcionam como pequenos braços capazes de absorver os nutrientes da alimentação, se atrofiam. A diarreia é um dos sintomas comuns.
Outro indício é a barriga dilatada, que aparece justamente pela ineficiência da digestão e o acúmulo de gases.
Um extremo cansaço, talvez pela deficiência de minerais como o ferro, também colabora para flagrar o mal.
Trigoésaúde: E qual o tratamento?
Marcello Bronstein: A exclusão total de alimentos que contêm glúten é a única maneira de combater os sintomas. Para evitar problemas e proteger os indivíduos com a doença celíaca, no Brasil, desde o ano de 1992, há uma lei que determina que todos os produtos industrializados que tragam a proteína apresentem essa informação no rótulo.
Veja também entrevista do professor Marcello Bronstein ao Jornal Hoje, da Rede Globo.
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