As dietas da moda cada vez mais criam mitos para conquistar adeptos. Um mito que tem gerado confusão é o de que a intolerância ao glúten pode levar à obesidade. A dra. Sandra Lúcia Fernandes, médica nutróloga da ABRAN, explica o que é glúten e desfaz tal confusão.
TrigoéSaúde: O que é glúten? Quais são os alimentos que contêm essa substância? Dra. Sandra Lúcia: Glúten nada mais é do que uma proteína. Essa proteína é composta pela mistura de cadeias proteicas de gliadina e glutenina, que se encontram naturalmente na semente de muitos cereais, como o trigo, a cevada, o centeio e a aveia.
TrigoéSaúde: Existe alguma relação entre consumo de glúten e obesidade, como alegam algumas dietas da moda? Dra. Sandra Lúcia: Não se pode afirmar nem que glúten engorda nem que intolerância ao glúten causa obesidade. Isso não tem nenhuma base científica. Aliás, não se pode afirmar que qualquer alimento engorda ou emagrece. Isso depende muito mais da quantidade que a pessoa come e de quanto exercício físico ela pratica. Tudo o que tem glúten, tem muito carboidrato. Os alimentos que contêm glúten, portanto, são fontes de energia, e o excesso de consumo desses alimentos, associados ao sedentarismo, colaboram para o aumento de peso. Mas é perfeitamente possível consumir glúten e emagrecer. Lembrando que glúten só faz mal a quem tem a doença celíaca.
TrigoéSaúde: O que é a doença celíaca? Quais são os sintomas? Dra. Sandra Lúcia: A doença celíaca afeta 1% da população e se caracteriza por uma intolerância ou alergia permanente ao glúten. Os sintomas mais frequentes são diarreia, má digestão, perda de peso e até lesões na pele. Os sintomas aparecem quando o portador da doença ingere alimentos que contêm glúten. Isso ocorre porque, nessas pessoas, a gliadina presente na proteína provoca alterações na mucosa intestinal que causam danos ao intestino delgado, impedindo uma digestão normal. Eliminando completamente o glúten da dieta, o intestino volta a funcionar normalmente depois de alguns meses.
TrigoéSaúde: E como é feito o diagnóstico? Existem exames específicos? Dra. Sandra Lúcia: Existem exames de sangue que definem o diagnóstico. Os mais sensíveis são os exames de Dosagem de IGA antigliadina e antitransglutaminase. Outra maneira de diagnosticar a doença celíaca é por meio da biópsia do intestino delgado, feita a partir de endoscopia digestiva.
TrigoéSaúde: Para pessoas saudáveis, quais são os benefícios de alimentos que contêm glúten? Dra. Sandra Lúcia: Esses alimentos representam principalmente boas fontes de energia, pois são ricos em carboidratos. No caso do trigo integral, os benefícios são muitos. Por ser um carboidrato de absorção lenta, ele não aumenta tanto o índice glicêmico (nível de açúcar no sangue), tornando-se um alimento bom inclusive para diabéticos.
TrigoéSaúde: E o que acontece quando pessoas que não têm a doença celíaca excluem da dieta alimentos que contêm glúten acreditando, desse modo, emagrecer? Dra. Sandra Lúcia: Essas dietas de emagrecimento que culpam o glúten não têm nenhuma base científica – até porque quem tem a doença celíaca tende a ser magro! Além de se privar dos benefícios do trigo, a pessoa tem uma dieta desequilibrada. Ela pode até emagrecer, mas não porque tirou o glúten. Emagrece porque tirou o carboidrato, mas isso não significa que ela perdeu gordura – pode ser que tenha perdido músculo. O ideal, para quem quer emagrecer, é substituir o carboidrato simples (a farinha de trigo refinada) pelo carboidrato integral, e reduzir as porções a uma quantidade calculada especificamente para ela. Esse cálculo é feito em função do peso, da altura, da idade e do nível de atividade física que pratica. É isso que as pessoas não entendem: nenhum alimento em si engorda; o que engorda é a relação entre a quantidade consumida e os exercícios que faz. Se a pessoa quer emagrecer e não pratica nenhuma atividade física, tem que comer menos ainda.
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